
O CANTO DO CISNE
Um conto de fadas moderno
Fantasia / Contos de Fadas / Releitura
Sinopse
Elena vê sua vida virar de cabeça para baixo quando espetáculo e vida real se misturam.
Nos palcos: ela interpreta a princesa Odette, de “O lago dos cisnes”, que, enfeitiçada, tem como sina se transformar em cisne todas as manhãs.
Na vida real: tal como ocorre na história que protagoniza, torna-se vítima do mesmo feitiço, e agora precisará encontrar o tal do amor verdadeiro para findar a maldição, sob o risco de perder o papel do espetáculo – e a própria vida.

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CAPÍTULO 1
– Lúcia, acho que vou morrer! – Dramática que só ela, Elena se referia à revolução interna que acontecia em seu estômago. – Tem muitas concorrentes boas aqui!
– Relaxa, amiga! Você é ótima, não apenas boa. Isso quer dizer que as chances são as melhores possíveis! – Lúcia vibrou do outro lado da linha.
Elena sorriu, sentindo-se um tiquinho mais aliviada por poder contar com o apoio da melhor amiga, que era um poço de otimismo.
Semana passada, tinha recebido o e-mail da produção confirmando sua última audição. Estava a um passo de realizar um de seus maiores sonhos: estrelar um grande espetáculo, a releitura de um dos clássicos do ballet – O lago do cisne –, que seria transformado em uma ópera rock.
Pena que o pai não comemorara com ela ao saber da notícia. Mais uma vez discutiram feio. Ele gostaria que a filha estudasse direito, medicina ou arquitetura. Todo o resto era perda de tempo e se dedicar à dramaturgia não levaria ninguém a lugar algum, costumava dizer. Já sua mãe não só comemorara vitória antes do tempo, como espalhou para todo mundo que a filha era a atriz principal de uma peça de teatro. As reações tão opostas, de um e do outro, não poderiam exemplificar melhor como eram os pais de Elena, divorciados desde que ela tinha cinco anos de idade.
Respirando fundo, deixou o passado para trás e choramingou mais um pouquinho.
– Promete que vou me sair bem?
– Mais que bem! Você vai se sair ótima! – Lúcia garantiu. – E depois vamos comemorar!
– Obrigada! Você é a melhor!
– Sei disso! – implicou com a amiga. – Agora, me deseja boa sorte porque, em vez de estudar anatomia básica de aves, fiquei de pegação com o gostoso do Joaquim. – Lúcia tinha esse dom de resumir seus problemas e esperar que se solucionassem por sorte.
Elena jurava que em outra vida Lúcia fora um Leprechaun ou coisa parecida. A sorte dela era mesmo uma coisa impressionante.
– Boa sorte! – Elena desejou com sinceridade.
– Obrigada, linda! Agora vai lá e arrasa! Merda pra você! – desejou Lúcia.
E foi o que Elena fez assim que seu nome foi chamado ao palco.
O toc, toc, toc de seu salto acompanhava a batida do coração ansioso. “Ai, meu Deus! Acho que vou ter um troço!”
– Númerro cinco, se apresente, porr favorr – Elena reconheceu Angelique Moreau Milano, uma das bailarinas francesas mais célebres de todos os tempos, como uma das diretoras do espetáculo.
Elena limpou a garganta tentando não parecer nervosa, mas falhou.
– Pra-prazer. Sou Elena Santini e sou cantora e atriz profissional.
– E dança? – Angelique perguntou, incisiva.
– Sim. Mas posso aprender mais com você.
– Muito bem. Nos mostre o que sabe fazerr – Angelique pediu em tom neutro.
– Elena, irei acompanhá-la nos diálogos – avisou Manolo Belle, deus do teatro brasileiro, e um dos diretores do espetáculo.
– Será um prazer – respondeu, tentando não demonstrar a empolgação juvenil que sentia por contracenar com ele.
“Tá legal. É agora!”, pensou Elena ao se concentrar. Ao reabrir os olhos, se esqueceu de que era atriz e estava sendo avaliada. Ela era Odette, a princesa.
~~~
Logo pela manhã, o rei recebera o mensageiro do reino vizinho. Tratava-se de um convite em nome do rei e da rainha, para comemorar o aniversário de seu filho e príncipe herdeiro do trono.
O envelope selado com o brasão da família real e a caligrafia elegante diziam muito a respeito da ocasião. Príncipe Siegfried atingiria sua maioridade, o que significava que procuraria uma moça para desposar e ter como futura rainha.
“Uma ótima oportunidade para fazer negócios”, pensou o rei.
– Horácio, contrate os melhores sapateiros e alfaiates de meu reino. Iremos ao baile de aniversário do príncipe Siegfried. Minha filha Odette deve ser a mais estonteante das moças – ordenou o rei.
– Sim, vossa majestade – curvou-se o humilde servo.
Antes de se retirar, no entanto, o rei lhe fez outra exigência:
– Certifique-se de que a preceptora de Odette reforce os passos de valsa. Não quero erros. E se ela estiver cantando para a criadagem outra vez, diga-lhe que a trancafiarei em uma torre, como nas histórias que tanto adora!
– Sim, vossa majestade.
Mas a rainha interrompeu:
– Ora, querido! Deixe que cante! Melhor que pratique e esteja afinada, se quiser encantar o príncipe.
– Odette não é sereia para encantar rapazotes com canto. É princesa, portanto, deve ter graça e beleza para casar-se com um príncipe. – Dito isso, comandou ao criado: – Agora vá, Horácio. Faze o que mandei.
Ouvindo tudo detrás da porta, Odette seguiu direto para os fundos, passando pela cozinha, pelo jardim e pelos campos além dos portões. Circundou um pequeníssimo lago e sentou-se à sua beira, desejando muito ser livre como os cisnes que nele planavam. E, triste, a princesa cantou.
– Princesinha, o rei te procura – o criado a surpreendeu em flagrante.
– Horácio! – espantou-se. Tinha despistado todos os criados.
Odette sabia que o pai não queria saber de vê-la se expondo. Cantar não demonstrava o recato que uma princesa deveria ter. Na opinião de seu pai, uma princesa deveria saber ler para recitar poesias – e não para ler tratados -, deveria ser bela – para que fosse apreciada e tida como uma de suas muitas posses –, deveria ser obediente – porque quem mandava era o rei –, deveria saber bailar – para acompanhar os passos de algum príncipe desconhecido, a quem seu pai a entregaria como uma relíquia a ser passada adiante.
– Ah, Horácio – suspirou a princesa –, como encontraste meu novo esconderijo? Agora terei de buscar outro lugar secreto.
– Sabes que não me importo, princesinha. Na verdade, sabes que adoro ouvi-la cantar. Mas receio que o rei...
– Mandou-te vir me procurar...
– Sim. Mas há um motivo. Um baile.
Odette arqueou as sobrancelhas, preocupada e interessada no que viria a seguir.
– O rei e a rainha do reino ao lado convidaram vossa família para o baile de maioridade do príncipe.
Odette bufou.
Horácio tentou convencê-la:
– Ora, anima-te! Terás oportunidade de fazer novas amizades. Pensaste nisto?
Odette começou a prestar mais atenção. Não tinha muito contato com pessoas da mesma idade. As poucas que conhecia ou eram plebeias – com quem seu pai proibia contato – ou eram suas primas, que moravam em terras distantes. Viam-se somente em datas especiais. Seria bom ter uma amiga com quem pudesse divertir-se e dividir as angústias, para variar.
– Poderás usar o vestido mais lindo que quiseres e dançarás a noite inteira, como nos contos de fadas.
Odette tornou a fechar a cara. Gostava de dançar, mas não gostava do que isso implicava em sua idade: encontrar um bom partido para se casar.
– Mas eu sou muito nova, Horácio! Não quero me casar! – Odette se levantou em um pulo, cerrando a mão em um punho. – Não estou pronta!
Horácio mais uma vez tentou apaziguá-la.
– Sinto muito, princesa. Mas já está na idade de se casar. A união entre os dois reinos faria vosso pai e mãe muito felizes.
– Tenho certeza que sim – murmurou revoltada.
– Princesa...
O tom alarmante de Horácio indicava que vinha mais.
– Diga logo. – Odette era do tipo que preferia o golpe de uma vez.
– Vossa mãe e tu foram convidadas para o chá de hoje à tarde da rainha.
Odette fechou os olhos, sentindo-se completamente derrotada por um momento. Sabia que o convite era um pretexto para a rainha escolher a dedo as candidatas para o filho. E com esse pensamento, o estômago embrulhou, a visão embaçou. Desmaiou.
Acordou pouco tempo depois, já em seus aposentos. A criada de sua mãe lhe passava compressa fria sobre a testa.
– Oh, querida! – Sua mãe suspirou, aliviada – Sente-se melhor? – perguntou, sentando-se ao lado da filha, na cama.
Odette observou a movimentação ao redor antes de responder. Tinha cerca de sete criadas correndo para lá e para cá, a fim de preparar banho e roupas de festim.
– Mamãe, sinto-me indisposta.
– Nada disso, Odette! – A rainha pôs a mão na testa da filha para se certificar de que ela não estava com febre. – Estás ótima!
Chegando ao castelo, foi recebida com floreios e música. Havia, além dela e da mãe, outras princesas e rainhas de lugares longínquos.
Cerca de dez garotas, todas na “idade certa para casamento”, estavam impecavelmente arrumadas como bonecas de porcelana. Era notável o interesse delas em se casar com o príncipe Siegfried.
Cada uma falava quando lhe era dada a chance e não perdiam a oportunidade de mostrar seus talentos. Teve princesas tocando piano, recitando poesias, exibindo adornos e descrevendo sobre as terras que tinham. A rainha anfitriã ouvia palavra por palavra e não escondia que estava avaliando tudo e todas. Quando chegou a vez de Odette, foi no ímpeto que falou que sabia cantar.
– Por favor, agracie-nos então.
A mãe de Odette engoliu a seco. Sabia que a filha cantava bem, mas não sabia com que olhos – ou ouvidos – a rainha julgaria.
Mas para a surpresa de todos e deleite da rainha, a voz de Odette era a mais doce possível.
A princesa cantou com uma esperança que vinha da alma e emocionou a todas. Exceto uma, que não era princesa, tampouco era nobre. Mas seu pai era influente e certificar-se-ia de acabar com quaisquer fortes candidatas ao coração do príncipe. A moça – que de humilde nada tinha, além dos poucos vinténs no bolso – tinha nascido para ser rainha e não pararia até conseguir o que queria.
Alheia à inveja, Odette terminava sua canção.
~~~
Elena cantava como se fosse um passarinho preso sonhando com a liberdade. Ela se movimentava sutil, quase etérea sobre o palco. E ao atingir o ápice da nota mais alta, terminou sua apresentação em grande estilo.
Tinha dado seu melhor.
Encarou os diretores – e jurados –, mas não soube dizer se haviam gostado. Estavam calados. Os olhos vidrados no além. Elena olhou para a fila de candidatas ao mesmo papel que ela, encontrando rostos tristes de derrota. Até ouvir alguém dizer:
– Incrível! – Manolo soltou.
“Ai, meu Deus!!!”, pensou e abriu um largo sorriso enquanto aguardava pacientemente que os demais se pronunciassem.
– Acho que encontramos a nossa Odette – disse Angelique com um meio-sorriso.
– Com certeza – respondeu Manolo com a mesma convicção.
Entretanto...
– Cedo demais para afirmar uma coisa dessas. Ela tem potencial, mas precisamos avaliar as outras garotas – a voz de Ronald Roland, produtor musical americano, reconhecido internacionalmente, ecoou dura pelo anfiteatro.
O sorriso de Elena murchou na mesma hora em que a concorrente número seis suspirou aliviada. Elena olhou para ela e ficou desconcertada com a semelhança entre elas. O.k. que um dos pré-requisitos para o papel de Odette era ter longos cabelos castanhos e olhos verdes. As outras concorrentes também eram semelhantes, mas nenhuma tão parecida com ela como a número seis. Ambas tinham a mesma estatura e biótipo, estilo mignon. Os cabelos também tinham o mesmo tom de castanho e escorridos quase até a cintura. Somente o verde dos olhos era diferente: o da número seis era verde-oliva enquanto o de Elena era esmeralda.
Os diretores fizeram uma rodinha e trocaram confidências. Elena pôde sentir alguns olhares em sua direção enquanto conversavam.
– Muito bem. Números 6 ao 10, vocês serão as próximas a se apresentarem. Números 1 ao 4, agradecemos pela participação, mas vocês não irão para a próxima etapa. Número 5, aguarde no auditório – Ronald ordenou, prático.
Elena se encaminhou à plateia e sentou em uma das cadeiras de trás. Depois de ter sido fuzilada por algumas concorrentes, ficou amuada.
A apresentação da número seis foi ótima. A extensão vocal dela era mezzo-soprano; entretanto ela compensava com a dança. Tinha uma habilidade invejável devido os trabalhos anteriores como bailarina profissional. Com certeza Angelique não deixaria passar despercebido esse detalhe.
Estava quase acabando com a carne do dedão – de tanto que mordia –, quando foi novamente convocada a unir-se às demais concorrentes, no palco.
– Muito bem, meninas. Vocês estão aqui porque foram as melhores da temporada. Foram mais de cinco cidades e centenas de pessoas avaliadas. Vocês chegaram longe.
– Anda logo, Manolo, isso aqui não é final de reality show. Isso é coisa séria! – resmungou Ronald.
Elena imaginou que, se estivessem em um show de talentos, Ronald seria o jurado mal-humorado que destrói sonhos. “Babaca.”
– Estou me divertindo tanto. Não corta meu barato! – Manolo pareceu nem se importar com a grosseria de Ronald. – Como estava dizendo, obrigado por terem participado da audição. Vocês são todas muito talentosas, mas vamos selecionar apenas duas de vocês. Uma Odette e uma Odile.
A notícia pegou todas as candidatas de surpresa. Normalmente era escolhida somente uma atriz/bailarina para interpretar ambas.
Ronald bufou e olhou ansioso do relógio para a candidata número seis. Manolo continuou:
– Depois de muita discussão, decidimos que a número cinco será Odette e a número seis será Odile. Parabéns, meninas! Vocês foram ótimas, mas daqui para frente, precisarão ser melhores ainda. Vejo vocês amanhã para o teste final com o Príncipe Siegfried.



