
ETERNA: O SOM DO AMOR
O amor nunca morre.
Fantasia / Dark Fantasy /Romance
Sinopse
Bernardo Milano é um violoncelista talentoso que tem sua vida arrancada de forma abrupta: é assassinado no dia de sua estreia como solista no Theatro Municipal de São Paulo.
O crime choca todo o país, em especial a cientista Cecília Ferreira que sem saber, faz um trato com uma entidade vodu. Bernardo desperta de seu túmulo, mas o milagre vem acompanhado de uma maldição: se de dia ele vive, à noite sua verdadeira face cadavérica é exposta.
Contra todas as (im)possibilidades, Cecília e Bernardo recebem do destino uma segunda chance. Conseguirão burlar a morte e fazer com que esta não se revele um caminho sem volta?

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1 - Prelúdio
São Paulo, SP– Brasil, 12 de junho de 2011
Bernardo se aprumava em frente ao espelho tentando a todo custo se apresentar pomposo e seguro como seu pai, o renomado maestro Adônis Milano. Riu de si quando percebeu que suas tentativas seriam vãs. Parou e fitou a própria imagem: um homem alto de ombros largos, nem muito forte nem muito magro, de cabelo louro encaracolado e olhos castanhos encorajadores. Era hoje seu grande dia.
Alguém bateu à porta.
— Pode entrar.
— Bernar... Oh! Vous êtes très beau! — elogiou sorrindo uma mãe orgulhosa.
— Eu tentando parecer apresentável e a senhora chega aqui como uma deusa! Isso não me parece nada justo! — disse com uma formalidade exagerada, mas cheia do cavalheirismo que ela adorava.
Criada aos costumes franceses, Angelique apresentava aquele aspecto delicado com um leve ar de desdém que toda bailarina tem.
Dançava em uma encenação do Lago dos Cisnes quando conquistara o coração do brasileiro aspirante a maestro que perambulava por Florença, na Itália, à procura de sentido na vida.
Três meses depois, casaram-se, loucos de amor. Angelique encontrara em Adônis o calor que não sentira em lugar algum na Europa.
Sorriu com a lembrança. Passou a mão entre os cachos do filho como costumava fazer quando ele era apenas um garotinho. Era sua maneira de dizer que tudo ficaria bem.
— Mãe? A senhora tá chorando?
Angelique agarrou o rosto do filho com as mãos pálidas e frágeis, aproximando-o de sua face:
— Te amo, monchèr — respondeu num sussurro com um olhar que perfurava a alma.
Bernardo conhecia aquele olhar. Vasculhou na memória o momento em que isso ocorrera antes. Lembrou. Certa vez, os pais participaram de uma turnê internacional que os deixaria longe por mais ou menos seis meses. Ao se despedirem, ela olhara bem dentro dos olhos do filho para certificá-lo de que ela voltaria e para convencer a si mesma de que ele estaria lá quando voltasse.
Abraçou forte a mãe e deu seu sorriso de anjo.
— Não precisa se preocupar, dona Angelique. A propósito, também te amo!
Sentiu a mãe relaxar em seus braços, isso o acalmou também. “Estes agouros de mãe...”, pensou preocupado, mas achou melhor esquecer, afinal, se apresentaria junto à Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo como solista de violoncelo convidado.
— Me acompanha? — perguntou todo seguro de si.
— Sempre — respondeu ela. Os olhos antes marejados começaram a sorrir.
O caminho até o Theatro Municipal de São Paulo foi feito em silêncio. Submerso nos próprios pensamentos, Bernardo observava a estranha coloração acinzentada de inverno que a cidade havia ganhado — tão diferente do visual tropical do resto do ano.
As ruas do centro estariam vazias se não fosse por dois grupos distintos: pessoas com roupas pesadas e elegantes em tons escuros esperando para entrar e assistir ao concerto, e, um pouco mais adiante, alguns mendigos abandonados à mercê da sorte.
Tinha nascido bem e era grato por isso. Entretanto, sempre fizera questão de trabalhar duro para ter o que queria. Por isso, hoje, mais do que nunca, daria tudo de si e acabaria com os rumores de que só tinha conseguido se apresentar solo por ser filho de quem era.
A garoa apertou assim que o carro parou em frente ao que parecia ser um castelo iluminado a ouro — como um oásis no meio de uma São Paulo fria e escura: o Theatro Municipal se reinaugurava em grande estilo.
— Você vai se sairr bem, mon amour — confirmou a mãe antes de descer do carro.
Bernardo assentiu e olhou de esguelha para seu pai, que não era de falar muito nem de dar grandes incentivos. Era mais do tipo que ensinava com reforço negativo. Encararam-se por alguns segundos sem dizerem nada, até que o pai saiu do carro em companhia da mãe.
Aproveitando a oportunidade, Bernardo saiu pela outra porta. Deixaria a inevitável enxurrada de flashes e bajulação excessiva para os pais. Achava aquilo tudo uma espécie de tortura. Entretanto, não passou despercebido por Arlindo, motorista da família há anos, que mesmo de longe deu um toque no quepe desejando boa sorte.
Subindo as escadas com pressa para não ser pego no flagra, Bernardo deu de cara com quem menos queria: Caio Labarte, o spalla da orquestra.
O sr. Labarte, como gostava de ser chamado, era conhecido pelo mau humor crônico. Havia várias teorias a respeito de sua personalidade. Uma delas dizia que Caio Labarte tinha uma doença intestinal e, caso não se segurasse adequadamente, teria uma crise severa de flatulência. Por isso, permanecia com os músculos do corpo bem tensos o tempo todo. Sua aparência não o ajudava tampouco: o nariz fino sempre empinado como se cheirasse algo ruim deixava uma expressão torta no rosto. O cabelo tingido de loiro e penteado cuidadosamente para trás combinava com a pele branquíssima que parecia congelar naquela careta. Mas o que pintava mesmo de gelo aquela aura era o azul glacial de seus olhos.
— Bernardo! Que surpresa você por aqui!
Bernardo foi contra seus instintos de deixá-lo falando sozinho.
— Pois é. Tenho uma coisinha importante para fazer aqui hoje.
— Mas é claro! Que cabeça a minha! Como pude me esquecer que o filho do maestro ia solar no concerto de reinauguração do Theatro?! — Sorriu cínico numa boca que mais parecia um traço a lápis.
— Uma pena não ser você, né?! — Sorriu amarelo, dando uns tapinhas nas costas de Caio, e o deixou para trás.
“Sujeito desagradável...”, bufou Bernardo enquanto se encontrava no novo hall de entrada do Theatro — deslumbrante em seus detalhes em ouro e afrescos. O tapete vermelho se estendia pela escadaria principal, que se dividia em três. Lá, encontrou alguns rostos conhecidos, outros invejosos e alguns amigos, mas todos dividindo as mesmas aflições. Os ingressos tinham se esgotado. Era incrível e ao mesmo tempo assustador.
— Bernardo!
“Ah, não...” Virou-se. Era Otávio, amigo de Caio, melhor dizendo, o violinista puxa-saco oficial do spalla.
— E aí, Bernardo, tudo bem? — Ele estava na sua cola, estendendo a mão suada para cumprimento.
— Estou bem. É uma boa noite para todos.
— Com certeza! Inclusive está cheio de gente interessante. Você já trabalhou com o Alex, não é? Me apresenta a ele?
— Pode deixar, Otávio. Assim que der, apresento vocês. — Fez o social brasileiro no melhor estilo.
Otávio agradeceu e se despediu, estudando Bernardo ao longe.Ficou se perguntando o que ele tinha de mais.
Bernardo andou um pouco pelos corredores, passando por alguns olhares reprovadores, outros simpáticos, até decidir ir aos bastidores bisbilhotar por detrás da espessa cortina vermelha. Deparou-se com uma plateia enorme e silenciosa em vermelho e dourado. Imaginou como seria tocar ali quando estivesse cheio.
— Hey, stranger! — Uma mão grande e pesada deu um tapa nada sutil que quase arrancou algumas costelas de Bernardo. Era Pedro, seu melhor amigo desde que se entendia por gente, que sorria debilmente para ele. Pedro sempre fora maior que os coleguinhas de classe e era o palhaço da turma. Hoje era conhecido como arrasador de corações.Sua especialidade: gordinhas. Tinha certa obsessão por malhar o que ele chamava de “meu Templo”.
— Deixa eu te apresentar, este é Tito. Amigo do futiba.
Cumprimentaram-se.
— Antônio.
— Bernardo.
— Pedro comentou que... Só um segundo — pediu Antônio enquanto se afastava com o celular.
Pedro já mapeava o local como um predador em busca da presa. E, pelo olhar, tinha acabado de encontrar quem queria. Botou seu sorriso mais cafajeste e foi até Roseta, sua paixão platônica antiga. Bernardo os observou de longe e era nítido o quanto se gostavam. Não entendia o problema daqueles dois.
— Desculpe. Era a minha irmã caçula que não sai do interior. Convidei para vir, mas ela preferiu me dar uma desculpa esfarrapada — justificou Antônio.
— Estejam todos em seus lugares, por favor! — disse a voz incrivelmente ardida de uma das organizadoras do evento. — Vamos afinar os instrumentos e colocar as coisas em ordem. Sim?
— É uma pena! Já conheci a outra irmã dele e, rapaz... — Pedro já estava de volta.
— Bom, vou pro meu lugar. Bernardo, foi um prazer te conhecer. — Apertaram mais uma vez as mãos e Antônio acrescentou: — Pedrão, vai ter volta.
Pedro riu e fez um aceno como se dissesse que não podia evitar se apaixonar por todas as mulheres do mundo.
— Você não vale nada — provocou Bernardo.
— Ô, meu príncipe! Não fica com ciúme, não!
— Você me ama que eu sei.
— Gay.
Eles riram.
A brincadeira acabou quando uma ruiva se aproximou devagar, deixando em evidência suas curvas delicadas e, com os olhos cravejados em Bernardo, disse sorrindo:
— Oi.
Antes de se afastar com a bela de cabelos flamejantes, Bernardo se certificou de que teria tempo. Olhou para trás e viu Pedro fazendo mímica, dizendo: “Ok. Ela é gostosa!”, o que na língua do amigo significava que dava tempo de sobra.
Conforme caminhavam em direção aos camarins, os sons de instrumentos sendo afinados ficavam mais distantes. Para a surpresa de Bernardo, foi guiado para outro corredor onde havia placas alertando “Mantenha distância”, “Fechada para reforma” e “Mantenha distância” de novo para os teimosos. Chegaram a um cômodo inacabado e sem teto que servia de guarda-entulho também. Havia alguns anjos e mulheres nuas entalhados em mármore branco. Parte do cômodo estava sem teto.
— Costumava ser uma sala para ensaios — disse a moça.
— Não sei seu nome.
— Júlia — contou sorrindo.
— Júlia. Combina com você.
Como uma serpente que hipnotiza o almoço, ela não precisou dizer mais nada. Beijou-o. Profunda e lentamente. Murmurou algo e correu para o interior da sala onde a iluminação do corredor não alcançava.
— Júlia? — chamou avançando alguns passos.
De repente, uma força esmagadora lhe tirou o ar. Levou as mãos ao pescoço e, com toda a força, puxou a corrente de aço que o sufocava. Bernardo se virou para trás desnorteado quando recebeu uma correntada no rosto. Cuspiu sangue. Equilibrou-se a tempo de evitar outro golpe. Agarrou os ombros do agressor e o arremessou contra a parede. O homem se levantou rápido e se jogou contra Bernardo. Os dois foram ao chão. Bernardo pegou um pedaço de madeira que estava próximo ao seu pé e golpeou em cheio o rosto do agressor, que cambaleou para trás. Enquanto corria de volta para o corredor, Bernardo sentiu a presença maligna se aproximando. Quando olhou para cima, vislumbrou uma figura despencando de um andaime. Sentiu algumas costelas se quebrarem e o ar escapar. Percebeu que o homem segurava um cano de aço. Sem pensar duas vezes, Bernardo acertou-lhe o nariz e o jogou para o lado. O sangue imundo do estranho escorria em seus dedos.Mesmo assim, foi com mãos em punho para cima do homem que tentava matá-lo. Um calafrio percorreu a sua espinha ao ver o brilho daqueles olhos. Apesar da escuridão, era possível ver o inferno neles.
O som de três violinos ensaiando a 5ª Sinfonia de Beethoven misturou-se com o do violoncelo e dos baixos ressoando até o saguão onde estavam.
O homem mascarado inflou de ódio naquele momento. Um misto de ultraje e estímulo. Seria a música tema para o momento, pensou com sadismo. E, antes que Bernardo pudesse ter chance de revide, o cano de aço foi de encontro à sua mandíbula.
Bernardo sentiu o chão rodar e o mundo ir junto a ele. A voz esquálida sussurrou asquerosa contra a melodia que começava a ser tocada:
— Mas vejam só, senhores! Eles estão começando sem a estrela... — disse o homem, olhando ao redor como se tivesse uma plateia observando-os.
Aproximou-se do corpo inerte no chão e deu-lhe um chute nas costas. Bernardo enrijeceu com a pancada. E depois o impacto do cano de aço açoitou cada parte de seu corpo. Cabeça, barriga, pernas, costas.
— Não que faça alguma diferença — continuou. — Como pode ouvir, a orquestra dá conta do recado sozinha. Aproveita teu momento e brilha, estrelinha!— A voz jorrava fel como a de um demônio.
Trompetes, trombones e flautas foram fazer companhia à sinfonia.
As pernas de Bernardo não respondiam mais aos seus comandos. Estava ensopado de sangue por fora e internamente o mesmo acontecia. Faltava-lhe o ar e os sentidos aos poucos o abandonavam também. Estava morrendo. O assassino se aproximou, despejando o hálito podre sobre sua face, e anunciou:
— Parece que vai chover. Mas acho que nunca mais haverá nuvem no meu céu.
O corpo inteiro travou naquele ponto onde o metal atravessava camada por camada até chegar ao seu coração. Olhou uma última vez para seu assassino, que em resposta sorriu com os olhos.
Então, Bernardo partiu. O mundo nunca mais ouviria sua linda música.



