top of page

Nunca contei para ninguém porque escrevi Eterna

  • Foto do escritor: Bianca Sousa
    Bianca Sousa
  • há 5 dias
  • 3 min de leitura

Atualizado: há 4 dias

Aos 21 anos tive uma chefe incrível. Ela era linda, jovem, bem-sucedida, mas um dia ouvi ela conversando com outra pessoa no escritório, dizendo que a vida dela já estava acabada, que já tinha mais de 30 anos e que nunca mais conseguiria um amor, que tinha desistido.


Eu achei aquilo um absurdo sem tamanho, mas, como não estava na conversa, não intervi. Porém, fiquei com aquilo na cabeça. Eu, aos 21 anos, achando ela maravilhosa, e a bonita falando mal de si mesma para os quatro cantos do mundo, com um discurso introjetado de machismo e autodepreciação. É claro que eu não entendia tudo com a precisão de agora, mas fiquei revoltada mesmo assim. Algo dentro de mim achou aquela situação lastimável, absurda, e eu não me conformei.


Eu estava em casa, certa tarde. Eu tinha um blog, era pobre, não tinha dinheiro para sair e, desde pequena, era comum criar histórias (às vezes para me refugiar em mundos melhores).


Mas claro que a psiquiatria quer colocar isso, o sonhar acordado, o imaginar mundos melhores, como transtorno e doença, porque, além de render milhões à indústria farmacêutica, o que mais a medicina faz é patologizar a vida. Tudo é problema do indivíduo. Nada da sociedade, aham... senta lá!


Voltando à minha chefe, é claro que ela se achava uma merda e que a vida tinha acabado aos trinta porque o discurso vigente que permeava principalmente a geração dela (lembrando que ela era mais velha que eu) era esse. Não era culpa dela que pensasse assim. Foi toda uma criação, uma cultura, uma sociedade, para enfiar essa ideia torta na cabeça dela e na de milhares de mulheres.


Hoje, consigo ver a misoginia escancarada em cada canto. É triste demais. (E olha que melhoramos enquanto sociedade, viu!).


Então, certa tarde, eu tive uma ideia. Eu tinha um blog na época. Lembra que já falei disso? Era essa época, a época dos blogs. E, às vezes, eu criava contos e publicava por lá.


Mas então, um personagem surgiu na minha cabeça: um andarilho com um violão em busca de algo. Então, comecei a escrever. Olhei para o meu cachorro Eros, vivo na época, e o nome dele me lembrou o deus do amor. Voltei para o arquivo que digitava e entendi que era uma história de amor. Era isso que o andarilho procurava.


Então sentei e escrevi o primeiro rascunho de Bernardo Milano.


Logo depois, ele me contou que procurava por Cecília Ferreira, uma cientista de 30 anos com obsessão por encontrar um antídoto para a morte. Soube pouco tempo depois, enquanto escrevia, que Bernardo era um morto-vivo e que tinha retornado à vida por amor, mas também por vingança.


E aí, humildemente, comecei a escrever o meu primeiro livro. Foi uma jornada de 3 anos, com muito aprendizado. Fui atrás de cursos e oficinas literárias, livros didáticos da área, reescrevi infinitas vezes e achei mesmo que a edição daquele livro seria eterna. Kkkkkkkk.


Hoje, em 2026, aos 36 anos, estou aqui editando o bendito de novo.


Trago Eterna novamente à existência, mais de dez anos depois do lançamento em 2014. A nova edição conta com cenas adicionais, editadas e excluídas. Foi a lapidação de um diamante bruto. Eu amo essa história.


E agora, aos 36 anos, reforço meu ponto de que pessoas 30+ podem ser incríveis e que a vida começa todos os dias.


Eterna será relançado a partir de agosto/2026.


Cecília Ferreira, a cientista 30+ de Eterna (livro). Arte por: Fae Brush
Cecília Ferreira, a cientista 30+ de Eterna (livro). Arte por: Fae Brush

Comentários


bottom of page